Oi, pessoal. Como vão?
Espero que bem e preparados para a conversa séria ― e
polêmica ― que vamos precisar ter hoje.
Eu sei como é difícil ler críticas duras. A linha entre a
crítica mais séria e o ódio puro consegue ser bem tênue às vezes, mas hoje
estou aqui para ajudar vocês a enfrentar esse medo (ou seria pavor?) em receber
comentários negativos.
Para começo de conversa, ao fazermos qualquer coisa, temos
que estar preparados para tudo. Faz parte da maturidade reconhecer que assim
como temos nossas próprias opiniões e elas são positivas ou negativas, os
outros também possuem esse conjunto de modos de pensar, que podem diferir muito
ou pouco do nosso. O mesmo direito que você tem que gostar ou não de algo, o
outro também tem. Inclusive o de não gostar de algo que você fez (mesmo que
com tanto carinho e cuidado).
Assim, conviver com os outros em sociedade é saber que tudo
o que fazemos está sujeito à avaliação externa; que pode ser bastante positiva,
positiva, normal, negativa e incrivelmente negativa. O que você pode fazer a
respeito é filtrar com quais opiniões vai se importar ou não, quais vai
responder e, principalmente, como vai responder a cada uma delas.
Dito isto, é com surpresa que percebo que muitas pessoas,
especialmente ligadas à arte (músicos, pintores, escultores, escritores, atores
etc.), um ambiente que por si só pressupõe pessoas com uma forma diferenciada
de ver e se colocar no mundo, com uma postura de censurar, desmerecer ou mesmo
boicotar quem faz qualquer comentário depreciativo.
Enquanto fazia uma breve pesquisa para escrever este post,
me deparei com um
texto lá no Homo Literatus em que a autora relatava casos de escritores com
uma reação bastante questionável a pessoas que não gostaram de suas obras. Um
deles chegou ao extremo de ir atrás de uma moça que fez uma resenha negativa de
seu livro e golpeá-la com uma garrafa na cabeça.
Ainda retomando o texto, a autora menciona o nosso guilty
pleasure preferido, falar mal do que não gostamos com pessoas que
também não gostam daquilo e, pelo menos para mim, lançou uma questão bem
interessante: como será que eu me sentiria se alguém quisesse me tirar isso?
Todas as pessoas possuem o direito de falarem o que pensam
sobre o que quer que seja. Antes de querer impedir o outro de dar uma opinião sobre o
que você fez, imagine o que faria se alguém quisesse te impedir de falar o que
pensa.
Alguns virão "mas as pessoas às vezes exageram, falam
mentiras e etc". Mas veja bem: tudo o que nós falamos tem consequências.
Maturidade também é saber disso. Eu posso falar o que eu quiser, mas tenho que
saber que isso vai me trazer uma consequência, seja pessoas se juntando a mim,
me jogando pedras, ou mesmo um processo judicial se eu passar muito dos limites
e começar a falar mentiras sobre os outros.
O foco aqui não é falar mentiras, imputar crimes ou atitudes
que os outros não cometeram. É apenas falar mal, falar que não gostou e que tal
obra tem certos defeitos, comentar coisas que são subjetivas ― e não
há crime algum nisso. Afinal, tem muitas coisas que eu adoro que as pessoas
detestam, e coisas que os outros amam que eu odeio. Quem está certo?
Ninguém, só quem tenta censurar o pensamento alheio.
A cada dia, eu chego à conclusão de que uma crítica é
construtiva ou destrutiva não dependendo da forma como ela foi feita, das
palavras que foram usadas ou da intenção do crítico, e sim do ponto de vista de
quem recebe essa crítica.
Também já me importei demais com críticas negativas. Ficava
muito mal ao lê-las. De "reescreve esse lixo" a "volta pra
escola e aprende a escrever" já li de tudo. Mas (e devo essa mudança de
pensamento à minha betamiga e aos meus professores exigentes da faculdade)
comecei a perceber que ninguém aprende nada só com elogios.
Quanto mais dizem que está tudo perfeito, mais a gente
começa a internalizar isso e vai se acomodando, por mais que ninguém admita. Já
com uma crítica, a gente procura melhorar, evoluir e dar tudo o que tem para
fazer melhor do que a última vez (nem que seja para esfregar na cara dos
outros, no caso dos mais vingativos).
Claro que o nosso primeiro posicionamento nunca é
"beleza, vamos refazer". A crítica nos tira da nossa zona de
conforto, coloca o dedo na ferida, por isso incomoda e machuca tanto. Mas se
você souber respirar fundo, procurar se avaliar e começar a definir estratégias
para mudar o que precisa, pensar no que estudar e praticar, verá que muitas
vezes mesmo a crítica mais ferrenha pode ser a melhor coisa que já lhe
aconteceu.
Não quero com isso dizer que sou melhor ou mais evoluída do
que quem ainda não pensa assim. Ainda tenho meus problemas em aceitar certos
posicionamentos, ainda brigo para defender algumas ideias pelo simples motivo
de serem questões de gosto. Mas considero isso um grande passo e fico feliz por
ter mudado, afinal esse posicionamento só iria me prejudicar, tanto pessoal
como profissionalmente.
Hoje estou aqui não para apontar o dedo na sua cara e dizer
que você precisa mudar (quem eu penso que sou para isso?), apenas quero
apresentar um caminho a quem já cansou de arrancar os cabelos e gastar horas e
horas em discussões que não vão a lugar nenhum ou quem quer parar de se
importar negativamente com opiniões mais ácidas para extrair delas o melhor
possível.
Depois dessa introdução gigantesca, vamos lá. O que está
aqui me custou muitas lágrimas, brigas, bloqueios, perdas de contatos e noites mal
dormidas para que eu pudesse aprender. Estou dando isso a você de graça, então
aproveite.
Se conheça bem, saiba o que você faz direito, o que você
ainda precisa melhorar e o que te diferencia dos outros. Conheça também suas
ideias e seu interesse com determinado trabalho. Tendo consciência de tudo
isso, você pode filtrar melhor as críticas que chegam.
Tem coisas que até seriam interessantes se você fizesse no
seu livro, por exemplo, mas acabaria dando um desdobramento que não é o que
você quer no momento. Alguém critica algo que você já sabia que não estava
muito bom, aí você percebe que precisa mesmo reforçar seus estudos naquela área
ou pedir ajuda a alguém que considera bom naquilo.
De repente, a pessoa não gosta de determinado gênero, então
coisas que são comuns nele ela pode achar que é bobo, forçado ou clichê. Será
que a crítica não veio por que o gosto do seu leitor é diferente? Ou talvez
alguém tenha falado mal de algo que você achava que fazia bem, então é um bom
momento para se autoavaliar: será que está bom mesmo? Ou eu tenho que melhorar
mais?
Acho até que vou estender a dica. Conheça bem também o seu
leitor. Conhecer, saber do que aquela pessoa gosta: o que ela costuma ler, o
que ela costuma avaliar mais num texto é fundamental para que você possa saber
em qual dos tipos de crítica acima ela se encaixa.
# Saiba exatamente o que a crítica quer dizer:
Vejo, especialmente entre escritores, pois estou mais
inserida no meio deles, a forma como autor e obra acabam se misturando na
maioria das vezes. Pergunte a qualquer um deles seus sentimentos a respeito de
seus livros e duvido que não ouça um "amo como um filho" ou "é
um sonho se realizando" e coisas do tipo.
Esse excesso de apego é bastante comum, mas prejudicial.
Acaba dando a ideia de que a obra é uma extensão do autor e, por consequência,
qualquer crítica a ela é também uma crítica direta à pessoa que a fez, mas não
é bem assim.
Quando alguém diz que seu texto é imaturo, entenda que o que
essa pessoa quis dizer é que seu texto precisa amadurecer mais, não você
necessariamente. Quando alguém escreve que seu texto não acrescenta nada de
novo, ela não quis dizer que você é um inútil, apenas que seu texto
poderia ser mais inovador.
Mesmo que alguém diga que o texto está “um lixo”, você
escolhe a forma como quer ver as coisas. Tanto pode escolher se ver como alguém
que fracassou e desistir (e ainda querer silenciar o crítico), ou perceber que
simplesmente se apressou demais e não deu tudo o que tinha naquela obra.
Na pior das hipóteses, a pessoa te chamou de lixo,
fracassado e disse que seu livro é desperdício de tempo e árvores. Na melhor,
ele disse que você é muito bom, mas acabou confiando tanto em si mesmo que
acabou se apressando e publicando/postando algo que nem parece seu.
Viu como tudo depende de você?
# Aprenda como responder esses comentários:
Serenidade sempre, por mais que a pessoa tenha sido ácida.
Se achar melhor, não responda na hora, mesmo porque toda reação impulsiva tende
a ser explosiva.
Feche a página e vá arejar a cabeça. Faça exercícios, lave
louça, cuide dos seus filhos ou bichinhos de estimação, ouça suas músicas
preferidas, veja algum seriado legal, leia um bom livro e respire fundo várias
vezes.
Aqui vem a importância do que falei lá em cima: conheça seu
crítico ― pelo menos, tente. Muitas vezes a pessoa acaba criando muitas
expectativas sobre seu texto, tem um gosto muito diferente ou simplesmente
valoriza outras coisas numa boa leitura. Cabe a você filtrar aqui todas as
opiniões que chegam, saber se a crítica parte de alguém que quer realmente
ajudar, de alguém que quer mais é que você desista ou se é somente uma pessoa
que está em uma faixa diferente da sua.
Só então responda.
Peça mais dicas e sugestões a quem quer ajudar ou procure debater
com a pessoa que esperava outra coisa na tentativa de compreendê-la melhor e
ajudá-la a entender qual era sua real intenção com a obra em questão. Já se a
pessoa só quer que você desista, faça exatamente o oposto. Mas agradeça a todos
sempre.
E por último, mas não menos importante:
# Pratique e evolua.
Você já leu a crítica, identificou que a pessoa ofereceu
dicas e sugestões interessantes e já sabe exatamente onde errou e onde ainda
pode melhorar. O que fazer?
Volte ao texto e comece a formular estratégias para melhorar
os pontos que ainda estão fracos. Pode ser que uma leve reescrita resolva,
talvez você tenha que mexer mais profundamente na obra.
Uma pequena pesquisa pode ser suficiente, ou de repente é
melhor colocar o texto em si de lado por um tempo e estudar mais profundamente,
seja algum aspecto mais técnico (diferentes formas de escrever diálogo,
melhorar pontuação, ortografia e gramática etc.) ou algo mais criativo mesmo
(escrever a cena de outra forma, aprofundar o personagem, mexer no enredo,
melhorar no diálogo etc.).
É fundamental que você tenha em mente que:
a) O texto nunca fica bom logo de cara
b) Você vai ter que revisá-lo e alterá-lo mais cedo ou
mais tarde
c) Muitas vezes é preciso reescrevê-lo muitas e muitas
vezes até chegar a um ponto em que ele esteja apresentável (veja bem: apresentável,
não bom).
Cito aqui meu próprio exemplo: estou trabalhando no meu
primeiro livro desde 2010 e já reescrevi o roteiro inteiro três ou quatro vezes
e fiz mais de cem pequenas alterações entre as reescritas. A primeira cena do
livro já foi reescrita mais de vinte e cinco vezes antes de ficar razoavelmente
bonitinha e ser mandada para o beta-reader (dessas, 18 na última semana do
prazo e depois de passar por outros dois betamigos). E é quase certeza que eu
ainda vá reescrevê-la outras vinte e cinco até chegar à versão final.
Contei para vocês que por causa dessas três leituras
críticas resolvi acrescentar coisas e talvez tenha que reescrever o plot todo
pela quarta ou quinta vez? Pois é. Não me considero um bom parâmetro, até
porque sou uma perfeccionista patológica, mas é apenas para vocês terem uma
ideia mesmo.
O crítico não é seu inimigo. Pelo contrário. Entre ler que
você está abaixo do seu nível de qualidade e precisa sentar e elaborar melhor
suas ideias no começo, quando ainda a algo a fazer para solucionar, ou quando
está publicado e já era, prefira a primeira opção.
E caso seja somente mais um hater, a resposta é simples: não
se desespere nem desista. Isso é justamente o que essas pessoas querem. A
melhor resposta é ser educado, agradecer a crítica e extrair dela o melhor
possível. Nada vai revoltá-lo mais.
Por último, também não vou iludir você. Sempre vai existir
quem critique. Por mais que você melhore, nunca será perfeito. É impossível
agradar a todos. Mas mudando sua postura ao receber essas opiniões negativas e
procurando sempre evoluir, a jornada ficará bem fácil.
Agora se levante daí, seque essas lágrimas, dê as mãos a seu
crítico de bolso, ouça o que ele tem a dizer e melhore. Escrever é 10% talento
e 90% trabalho. Você vai ter que percorrer um longo caminho de qualquer jeito,
mas o fardo ficará mais leve quando você descobrir que não precisa ir sozinho e
tem alguém para apontar o norte e lhe empurrar para seguir em frente.
Aproveite. Muita gente não tem essa sorte.
Até o próximo post.
2 Comentários
Oi.
ResponderExcluirGostaria de te parabenizar pelo ótimo texto.
Escrever sobre as críticas caiu como uma luva para mim, pois me fez lembrar de quando eu estava no cursinho (aula de redação), e meu texto ficou entre os 3 melhores da turma (no data show foram ocultados os nomes, mas eu sabia que era o meu pela técnica).
O meu texto ficou em terceiro, era uma narração-descritiva. A professora foi um pouco cruel na crítica ao meu texto porque naquele instante tive a impressão de que era a pior escritora do mundo todo e nunca seria lida por ninguém, fiquei vermelha de vergonha feito um pimentão, tive vontade de chorar na hora (chorei de raiva depois da aula), mas depois que me acalmei, compreendi que o que ela tentou me dizer não foi por maldade, com a intenção de me desencorajar.
Em função disso, depois de reler alguns textos antigos e perceber se ela não tinha razão, comecei a corrigi-los, percebendo se não repetia palavras, se eu realmente mergulhava fundo nos temas que me propunha a abordar. Melhorei muitíssimo a minha técnica e ampliei bastante minha argumentação, então acredito que apesar de eu não ter interpretado à época, foi um bom conselho.
Aliás, um conselho que vou levar para toda a minha vida.
Se um escritor ficar acomodado com os elogios, nunca terá ânimo de inovar, de se aprimorar, de provar a si mesmo que pode se arriscar, aprender muito com as pesquisas, enfim, amadurecer. Recebendo apenas elogios fofos, ficará envaidecido e um pouco intolerante com as críticas, como se o fato de alguém fazer uma leitura mais apurada do seu trabalho estivesse necessariamente o atacando pessoalmente.
No caso das pessoas que levam para o lado pessoal, como aconteceu na semana passada comigo, o jeito é respirar fundo e responder com educação. Nada deixa um hater mais indignado do que dirigir-se a ele com respeito.
No meu caso, já perdi a conta das vezes que reescrevo meus textos. Sou a minha maior crítica e isso me prejudica um pouco porque tenho medo de deixar, por exemplo, a minha família ler. Acredite ou não, eu ainda não tive coragem de mostrar minhas histórias para a minha mãe por medo.
Espero que a postagem de hoje seja pertinente para muitos autores e os auxilie a lidarem melhor com as críticas e fazerem delas um grande aprendizado em todos os sentidos.
Mais uma vez, parabéns pela postagem!
P.S. - Desculpe-me pelo comentário enorme.
Se temos que agradecer aos críticos, também temos que agradecer aos aconselhadores. Muito obrigada.
ResponderExcluirEstou em processo de aperfeiçoamento de minhas redações e em toda correção há um novo (ou antigo) erro. Melhora um, piora outro: é o que parece. Mas não é assim. Estamos sempre em processo de melhora. Não se pode desanimar. É praticar, continuar. A perfeição não é um ponto a se chegar, mas sim dar o melhor de si.
Para sugestões, opiniões, pedidos de post ou ameaças de morte, favor utilizar esta caixinha.